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quarta-feira, 15 de outubro de 2008


O Lobisomem


A aldeia andava em alvoroço! Ao fim da tarde, quando as pessoas recolhiam ao lar, depois de
um cansativo dia de trabalho, notava-se nelas um olhar receoso, a acompanhar as sombras
que os corpos desenhavam no chão. O patinhar nervoso de um macho, no caminho
empedrado, fazia-os levantar a cabeça com apreensão.
Quando finalmente o sol desaparecia para lá da linha do horizonte, as pessoas entravam
apressadamente em casa, aferrolhavam as portas e mais ninguém se aventurava na rua. Sem
sombra de dúvidas, que alguma coisa de extraordinário se passava, para trazer a população
aterrada.
Quando a família se reunia à volta da lareira, aconchegando-se do frio e do vento que lá fora
se fazia sentir, o silêncio da noite escura era quebrado por um tropel furioso que batia
surdamente nas pedras da calçada. Apesar do calor da lenha que crepitava no lume, as
pessoas sentiam-se trespassar por um calafrio que as empurrava para a cama.
Não conseguiram dormir! Os olhos inquietos acompanhavam, na escuridão do pequeno quarto,
o som da furiosa cavalgada que se ouvia na rua. Por vezes o barulho cessava e o silêncio
parecia paralisar os corações assustados. Era assim, noites seguidas, até ao romper da
aurora, altura em que tudo sossegava de novo e a vida tornava à normalidade.
No campo, cada um ocupava-se do trabalho, receando falar com o vizinho sobre o ocorrido. A
desconfiança juntava-se ao medo. Quem sabe, se não seria o lobisomem que todas as noites
aterrorizava a aldeia? Todos os cuidados eram poucos!
A situação arrastava-se há longo tempo, até que um corajoso moço resolveu desvendar o
mistério que a todos preocupava. Uma noite, em lugar de entrar em casa, escondeu-se no
palheiro, deixando a porta ligeiramente aberta.
A noite estava fria. O vento uivava violentamente, levantando nuvens de poeira à sua
passagem. Um ténue luar espreitava temeroso por entre as nuvens. O moço aconchegou o
capote, procurando resguardar-se do frio que o ia tolhendo.
Nisto, um furioso galope atroou os ares e uma sombra negra surgiu no meio da calçada, que
chispava com o contacto violento das patas. A figura horrenda resvalava pelas valetas,
escoicinhando para todos os lados, abalando as ombreiras das portas. O rapaz, assustado, mal
tinha forças para se mexer, encostando-se à porta do palheiro para se aguentar nas pernas.
Quando a misteriosa personagem se aproximou um pouco mais, o jovem quase em pânico,
pôde ver, à luz do luar, que se tratava de uma figura grotesca, metade homem e metade
cavalo, ferrado de pés e mãos. Sentiu o sangue gelar-se-lhe nas veias, mas a sorte estava do
seu lado. Antes que tivesse feito qualquer gesto que denunciasse a presença, o monstro
seguira caminho e desaparecera.


Refeito do forte susto que apanhara, regressou cautelosamente a casa, olhando inquieto em
todas as direcções. Deitou-se, mas não conseguia dormir. Não lhe saía do pensamento a
imagem da horrível figura. Constantemente se interrogava sobre o que deveria fazer ao outro
dia: contar o que vira, ou calar-se?
Logo que na rua se começaram a sentir os passos de homens e animais que se dirigiam para a
faina do campo, levantou-se e foi a casa de um dos mais velhos homens da aldeia, tido como
pessoa sensata e sabedora. Sentado num pequeno banco de três pés, junto à lareira, olhando
fixamente para o chão, não se atrevia a olhar para o rosto do homem que ouvia atentamente a
narração dos factos acontecidos na noite anterior, receando a sua reacção perante tão
mirabolante história.
- Foi grande a tua coragem, meu rapaz! O que presencias-te, poucas pessoas viram e algumas
delas não escaparam à fúria do lobisomem . respondeu o velho, num tom de voz calmo e
prudente.
O jovem, animado pela seriedade do ancião, levantou o rosto e fixou-o atentamente. Uma bela
cabeleira branca, com algumas falhas no meio, emoldurava-lhe a cara, morena, queimada por
uma vida de trabalho de sol a sol. Dois olhos escuros, com um brilho vivo e de expressão
meiga, sobressaíam do meio da pele enrugada e curtida pelo vento.
- Esse encanto . continuou o ancião . só termina quando alguém conseguir espetar o aguilhão
de uma vara no corpo do monstro, fazendo-o sangrar bastante. Mas, para isso, é preciso muita
coragem.
- Deixe o caso comigo . respondeu o moço, depois de ter pensado um pouco no assunto. Eu
próprio me encarregarei desse trabalho, se aí está a solução para tão terrível problema.
- Já tinha reparado que és corajoso, mas toma cuidado! Se não o picares bem, corres grave
perigo de vida!...
Quando anoiteceu e depois de toda a população ter recolhido a casa e aferrolhado as portas,
como habitualmente, o rapaz disse aos pais que ia passar a noite no palheiro, para sossegar
os animais que andavam um pouco nervosos. Apesar de a noite estar clara, iluminada por uma
lua cheia que, de vez em quando era ofuscada por novelos de nuvens, a ventania era forte.



Embuçando-se no espesso e escuro capote, o corajoso rapaz saiu do palheiro, levando uma
comprida e forte vara, de grande aguilhão. Cautelosamente, procurou as sombras das casas e
dirigiu-se para o cruzeiro que ficava à beira do caminho.
Não teve de esperar muito tempo para ouvir o furioso tropel, anunciador da presença da terrível
criatura. Dentro das casas, as crianças aconchegavam-se junto dos homens. As mulheres
desfiavam as contas do rosário, balbuciando a meia voz uma série infinda de orações. O rapaz,
apesar do medo, apertou fortemente a vara.
De repente, a infernal figura surgiu no largo, aproximando-se do local onde o destemido moço
estava escondido. Apesar de toda a sua coragem, tremia e lembrava-se das últimas palavras
que o velho lhe dissera: .Toma cuidado, se o não picares bem, corres grave perigo de vida!.
Um calafrio percorreu-lhe o corpo, mas recobrando o ânimo, preparou a vara, resolvido a levar
a missão até ao fim. Esperou! O monstro avançava, passando perto do rapaz que não hesitou
em cravar-lhe bem fundo a aguilhada. Um urro tremendo ecoou pela noite silenciosa,
aterrorizando ainda mais a população assustada.
Como por encanto, a calma voltou e o vulto diabólico desapareceu, não deixando rasto de si. O
valente moço respirou fundo, apesar de tremer como varas verdes e o coração bater
descontroladamente. Esperou um pouco para se acalmar e certificar-se que o lobisomem tinha
desaparecido, não fosse armar-lhe alguma cilada.
Mais calmo, foi-se deitar, mas não conseguia dormir, pensando em tudo por que tinha passado.
Ao outro dia, logo de manhã, foi a casa do ancião e contou-lhe o sucedido.
A partir desse dia, o furioso tropel deixou de se ouvir na povoação. As pessoas, encorajadas,
começaram a fazer vida normal, perguntando umas às outras a que se deveriam tais
acontecimentos.
Um dia, em conversa com uns amigos, o rapaz contou a sua aventura. Não demorou muito
tempo que toda a aldeia soubesse do acontecido. Só que ninguém conseguia descobrir quem
fora o infeliz que, por partes do demónio, tinha o triste fado de se transformar em lobisomem e
ter que, todas as noites, percorrer sete aldeias, sete fontes e sete pontes.
Pouco tempo depois, um dos mais ricos lavradores da aldeia, que há já algum tempo deixara



de ser visto, apareceu a coxear fortemente. A população olhou intrigada para o homem. Se até
então, ele sempre fora uma pessoa sã e forte, que desastre lhe teria provocado aquela
deformação? Seria ele o lobisomem?
Uma tarde, quando o rapaz tinha regressado do campo e dava ração ao gado, entrou no
palheiro o lavrador aleijado. Olhando fixamente o jovem, baixou as calças e mostrando-lhe uma
feia e profunda ferida, que lhe afectava a nádega direita, perguntou:
- Que achas que merecia a pessoa que fez isto a um homem, deixando-o aleijado para o resto
da vida?
- Sem dúvida, que tal não merece perdão . respondeu o moço, não desconfiando do motivo de
tal conversa.
- Tens razão, e justiça será feita . disse o homem.
Metendo a mão ao bolso, tirou um longo e afiado punhal, aproximando-se calmamente do
atónito rapaz que, num gesto instintivo recuou uns passos. Porém a parede interrompeu-lhe o
movimento. A manjedoura de um lado, e os fardos de palha do outro impediram a fuga. Estava
encurralado. Que queria aquele homem? Sempre o conhecera como pessoa justa e bondosa e
não se lembrava de lhe ter feito mal algum.
- Não te assustes . continuou o lavrador. Sei que és um rapaz corajoso. Sou o sétimo filho
varão, e por isso sofri o condão de me transformar em lobisomem. A tua coragem livrou-me
desse horrível fado Antes aleijado, mas limpo de alma e coração. Este punhal era do meu avô.
Tem o cabo de ouro e cravejado de pedras preciosas. Por mais valioso que seja não paga o
favor que me fizeste. É teu. Merece-lo mais do que ninguém.
Depositado o punhal nas mãos do assombrado rapaz, o lavrador saiu a coxear. Um sorriso de
felicidade, que o moço não pôde ver por estar de costas, sobrepôs-se ao esgar de dor que
sentia ao dar cada passada.



quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A MENINA E O PÁSSARO ENCANTADO

Rubem Alves

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: Era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola estiver aberta, vão embora para nunca mais voltar.Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades...Suas penas também eram diferentes.
Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava.Certa vez, voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão.
"- Menina, eu venho de montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. MOV.com.br - Recados Animados para seu Orkut




Trouxe, nas minhas penas, um pouco de encanto que eu vi, como presente para você...".E assim ele começava a cantar as canções e as estórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.Outra vez voltou vermelho como fogo, penacho dourado na cabeça.
"... Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga.
Minhas penas ficaram como aquele sol e eu trago canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.E de novo começavam as estórias.A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isso voltava sempre.
Mas chegava sempre uma hora de tristeza."- Tenho que ir", ele dizia."- Por favor não vá, fico tão triste, terei saudades e vou chorar...."."- Eu também terei saudades", dizia o pássaro. "-- Eu também vou chorar.
Mas eu vou lhe contar um segredo: As plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios... E o meu encanto precisa da saudade.
É aquela tristeza, na espera da volta, que faz com que minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudades.Eu deixarei de ser um pássaro encantado e você deixará de me amar.Assim ele partiu.
A menina sozinha, chorava de tristeza à noite. Imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa destas noites que ela teve uma idéia malvada."- Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá; será meu para sempre.
Nunca mais terei saudades, e ficarei feliz".Com estes pensamentos comprou uma linda gaiola, própria para um pássaro que se ama muito.
E ficou à espera.Finalmente ele chegou, maravilhoso, com suas novas cores, com estórias diferentes para contar.Cansado da viagem, adormeceu.Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Foi acordar de madrugada, com um gemido triste do pássaro.
"- Ah! Menina... Que é que você fez?
Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias...

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".Sem a saudade, o amor irá embora...
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas isto não aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ia ficando diferente.
Caíram suas plumas, os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste.
E veio o silêncio; deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava.E de noite ela chorava pensando naquilo que havia feito ao seu amigo...
Até que não mais agüentou.
Abriu a porta da gaiola.
"- Pode ir, pássaro, volte quando quiser...".
"- Obrigado, menina. É, eu tenho que partir.
É preciso partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro da gente. Sempre que você ficar com saudades, eu ficarei mais bonito.
Sempre que eu ficar com saudades, você ficará mais bonita. E você se enfeitará para me esperar...
E partiu. Voou que voou para lugares distantes. A menina contava os dias, e cada dia que passava a saudade crescia.
"- Que bom, pensava ela, meu pássaro está ficando encantado de novo...
".E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos; e penteava seus cabelos, colocava flores nos vasos...
"- Nunca se sabe.
Pode ser que ele volte hoje...
Sem que ela percebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado como o pássaro.
Porque em algum lugar ele deveria estar voando.
De algum lugar ele haveria de voltar.
AH! Mundo maravilhoso que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama...
E foi assim que ela, cada noite ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento.- Quem sabe ele voltará amanhã....
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
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©2007 '' Por Elke di Barros