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domingo, 18 de janeiro de 2009

Olhinhos de Água


A nuvem menina, que se condensara na fria alvorada, abriu os olhos de água e espreguiçou-se em respingos de alegria, fazendo brilhar arcos íris cada vez que um raio de sol nascente lhe tocava.
Arremessou a capa branca de algodão e debruçou-se curiosa, lá do alto.
Viu o chão cinzento e negro, até onde a vista alcançava.
Boiava num azul límpido e fundo.
Achou estranho o contraste entre a alegria lá no alto e a tristeza que avistara ao longe.



Um menino muito loiro espreitava no horizonte, sacudindo a cabeleira fulgente, e ria, ria… a desafiá-la para brincar.
Mas de cada vez que se aproximava, a nuvenzinha ia ficando mais pequena.Lembrou-se da escuridão que vira e sentiu muita pena.
Chegou-se mais perto do chão, onde galhos moribundos lhe estendiam os braços, talos amarelos em clareiras na calvície tostada, espinhos…O resto era um reticulado de frestas, feridas abertas, pedras calcinadas.
Um ou outro bicho lazarento farejava atento, lambendo gotas de orvalho, as costelas ressaltando, os nós da espinha quase rompendo o dorso.


Os mil olhinhos de água sentiram-se comovidos, zangados com o lindo menino loiro, que se tornara uma brasa imensa, afogueando tudo.
Cada vez mais pequena e mais próxima, a nuvenzinha viu sementinhas à espera, que acordaram nela o impulso imperioso da chuva.
Diminuindo descia, imbuída de tristeza, ao passo que se evaporava no ar quente que a cercava.O que restava do seu coração, uma gota pequenina, desprendeu-se e caiu…
Ainda escutou o riso alto do sol, não mais um menino, mas um sopro angustiante, que a dissipou antes que lograsse humedecer um círculo de poeira de poeira no solo dorido.



Maria Petronilho (cópia não autorizada, sem créditos)

©2007 '' Por Elke di Barros