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domingo, 18 de janeiro de 2009

Olhinhos de Água


A nuvem menina, que se condensara na fria alvorada, abriu os olhos de água e espreguiçou-se em respingos de alegria, fazendo brilhar arcos íris cada vez que um raio de sol nascente lhe tocava.
Arremessou a capa branca de algodão e debruçou-se curiosa, lá do alto.
Viu o chão cinzento e negro, até onde a vista alcançava.
Boiava num azul límpido e fundo.
Achou estranho o contraste entre a alegria lá no alto e a tristeza que avistara ao longe.



Um menino muito loiro espreitava no horizonte, sacudindo a cabeleira fulgente, e ria, ria… a desafiá-la para brincar.
Mas de cada vez que se aproximava, a nuvenzinha ia ficando mais pequena.Lembrou-se da escuridão que vira e sentiu muita pena.
Chegou-se mais perto do chão, onde galhos moribundos lhe estendiam os braços, talos amarelos em clareiras na calvície tostada, espinhos…O resto era um reticulado de frestas, feridas abertas, pedras calcinadas.
Um ou outro bicho lazarento farejava atento, lambendo gotas de orvalho, as costelas ressaltando, os nós da espinha quase rompendo o dorso.


Os mil olhinhos de água sentiram-se comovidos, zangados com o lindo menino loiro, que se tornara uma brasa imensa, afogueando tudo.
Cada vez mais pequena e mais próxima, a nuvenzinha viu sementinhas à espera, que acordaram nela o impulso imperioso da chuva.
Diminuindo descia, imbuída de tristeza, ao passo que se evaporava no ar quente que a cercava.O que restava do seu coração, uma gota pequenina, desprendeu-se e caiu…
Ainda escutou o riso alto do sol, não mais um menino, mas um sopro angustiante, que a dissipou antes que lograsse humedecer um círculo de poeira de poeira no solo dorido.



Maria Petronilho (cópia não autorizada, sem créditos)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A Fada teve Prémios

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Mais uma vez muito Obrigado amiga Mary pelos lindos Prémios recebidos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Contos de Hans Christian Andersen

A Rapariguinha dos fósforos
Fazia um frio terrível.
Nevava, e a noite aproximava-se rapidamente. Era o último dia de Dezembro, véspera de Ano Novo.
Apesar do frio intenso e da escuridão, andava pelas ruas uma menina descalça e com a cabeça descoberta.


Ao sair de casa ainda trazia umas chinelas, mas que não lhe serviram de muito. Eram enormes, tão grandes que decerto pertenciam à mãe e a pobre menina tinha-as perdido ao atravessar a rua correndo, para fugir de duas carruagens que rolavam velozmente. Estava agora descalça e tinha os pés roxos de frio. Dentro de um velho avental tinha muitos fósforos e segurava um punhado deles.
Ninguém lhe comprara fósforos durante o dia e nem sequer lhe tinham dado uma esmola. Morta de frio e de fome, arrastava-se pelas ruas. A pobre criança era a imagem da miséria. Caíam-lhe flocos de neve sobre os cabelos louros muito compridos.
As janelas das casas estavam todas iluminadas. Pelas ruas, espalhava-se o cheiro reconfortante de gansos assados, pois era véspera de Ano Novo.
A menina acocorou-se no ângulo formado pelos muros de duas casas. Encolhera as pernas e sentara-se em cima delas, mas continuava a ter frio. Não ousava voltar para casa porque não vendera nem um fósforo e não tinha sequer uma moeda para entregar ao pai. Temia que este lhe desse uma sova. Além disso, em casa fazia quase tanto frio como na rua, porque tinham apenas o telhado para os cobrir. Apesar de terem tapado com palha e trapos todas as frestas, o vento gelado penetrava incessantemente.

Tinha as mãos quase geladas pelo frio. Ah! Talvez a chama de um fósforo a pudesse aquecer um pouco. Oh! Um fósforo, apenas um! Esfregou o fósforo na parede e protegeu com uma das mãos a chamazinha viva. Que brilho magnífico! Pareceu-lhe que a chama era uma braseira de cobre acesa, irradiando um calor reconfortante. A rapariguinha estendeu os pés para os aquecer mas, subitamente, o fósforo apagou-se, a maravilhosa braseira desapareceu e a criança ficou apenas com um fósforo meio consumido entre os dedos.
Pegou noutro e acendeu-o. O brilho era tal que tornava o muro de um dos prédios tão transparente como vidro. A criança viu então uma sumptuosa sala de jantar, no centro da qual estava posta uma mesa coberta com uma toalha tão branca como a neve. Sobre ela havia copos de cristal, pratas e finíssimas porcelanas, reflectindo milhares de luzes. Numa travessa estava um ganso recheado com ameixas secas e maçãs fumegantes. Um cheiro delicioso espalhava-se pelo ar. De súbito, o ganso, apesar do garfo e da faca que tinha espetados no dorso, saltou do prato e dirigiu-se, bamboleando-se, para junto dela.

De repente, o fósforo apagou-se e a menina via, agora, o espesso muro do prédio.
Riscou outro fósforo e viu-se sentada junto de uma árvore de Natal magnífica, ainda maior e mais bela do que a que vira no Natal anterior, através da porta de vidro da casa de um rico comerciante. Uma infinidade de bolas coloridas reflectia os milhares de velas que ardiam por entre a ramagem. Dos ramos mais baixos pendiam, em fios de prata, laranjas e frutas cristalizadas.
A menina estendeu os braços para tanta maravilha, mas o fósforo apagou-se e todas as velas da árvore subiram para o céu, transformando-se em estrelas.
Uma delas caiu, deixando um longo rasto luminoso. «Morreu alguém», pensou a criança.
A avó, a única pessoa que lhe dera afecto e que já tinha morrido, dissera-lhe um dia:
- Sempre que cai uma estrela, uma alma entra no Paraíso.
A menina riscou outro fósforo na parede. Viu, então, à luz da chama, o rosto meigo da avozinha.
- Avó, leva-me contigo. Sei que vais desaparecer, quando se extinguir o fósforo. Desaparecerás como a braseira, o ganso recheado e a grande árvore de Natal - disse a criança.


Pôs-se a acender todos os fósforos que restavam na caixa, para conservar junto de si a imagem da avozinha. Os fósforos davam uma chama tão clara que parecia dia. Nunca a avó fora tão bela e tão grande como naquela noite.
A bondosa senhora pegou na criança entre os braços e ambas se elevaram no espaço, envolvidas por uma luz extraordinária. Subiram alto, muito alto, até onde deixa de existir o frio, a fome e o medo.
E, quando chegou a madrugada, encontraram a criança estendida no chão, com as faces rosadas e um sorriso nos lábios. Estava morta. Tinha morrido de frio, na última noite daquele ano.
O Sol do dia do Ano Novo ergueu-se sobre o corpo frágil e abandonado na neve. O avental da criança continha ainda alguns fósforos, mas perto do corpo encontrava-se um pacote de caixas vazias. No entanto, ninguém podia supor as esplêndidas coisas que a menina tinha visto, nem sequer a emoção que sentira ao ser levada pela bondosa avozinha, no dia em que o novo ano principiava.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008


smileys


Reza a História que, quando Herodes perseguiu São José, Nossa Senhora e o Menino Jesus, eles fugiram para o Egipto.

No seu percurso, passaram pela Serra da Avoaça e N. Senhora quis descansar porque estava muito cansada.
Todos tinham sede mas não se via nenhuma nascente por perto. S. José, vendo uma pedra ao pé deles, virou-se para o burro e ordenou:
- Dá um coice na pedra!
O burro obedeceu mas a pedra não tugiu!
S. José ordenou novamente:
- Dá um coice na pedra!
O burro obedeceu e desta vez a pedra gemeu!
S. José ordenou pela terceira vez:
- Dá um coice na pedra!
O burro obedeceu e a pedra chorou!
E desta forma puderam os três matar a sede.
A partir daí, a nascente passou a chamar-se Fonte da Pedra e possui propriedades terapêuticas;

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nomeadamente, a água cura os cravos, isto é, as verrugas das mãos.
Ainda lá estão as três marcas na pedra:
A primeira está seca (não tugiu).
A segunda deita um fio de água (gemeu).
A terceira é a nascente (chorou).
Enquanto descansavam, Nossa Senhora resolveu estender a toalha sobre uma pedra para comerem algo, que a fome apertava.

Pois desde então nunca mais o musgo cresceu nessa pedra, como ainda hoje se pode comprovar!
Porém , chegou a hora de continuarem a viagem e arrumaram tudo.
Quando começaram a andar, Nossa Senhora prendeu o manto no mato que crescia na zona e rasgou-o.
Como castigo de tal atitude, decidiu que nunca o mato cresceria, seria sempre pequeno. E assim é, visto que ainda hoje se diz que o mato é como o da Fonte da Pedra, quando se pretende explicar que é de pequena estatura.
Tinha a Sagrada Família retomado a sua marcha, quando chegaram a um terreno onde várias pessoas semeavam a terra.

smilies


E pergunta S. José:
- Então que semeais aqui?
- Semeamos pão (leia-se centeio)!
- Pois voltai amanhã, que pão colhereis!!
E assim aconteceu: no dia seguinte, as pessoas voltaram e encontraram o terreno repleto de centeio maduro, pronto para a ceifa.
Mais à frente, Nossa Senhora e S. José encontraram outro grupo de pessoas que semeavam igualmente um terreno.
E, de igual forma, pergunta S. José:
-Então, que semeais vós aqui?
Sendo estas pessoas de má índole, responderam:
- Semeamos pedras!
- Pois voltai amanhã, que pedras colhereis!
E no dia seguinte, quando as pessoas tornaram ao terreno, encontraram-no cheio de pedregulhos.

smiley


Diz-se que foi na Pedriça de Unhais, onde ainda se podem ver as pedras.
Entretanto, o rei Herodes não se conformou com a fuga da Sagrada Família e mandou soldados no seu encalço.
Estes seguiram o mesmo percurso da Fonte da Pedra e chegaram ao local onde o primeiro grupo de homens ceifava o terreno de centeio.
Os soldados resolveram informar-se e perguntaram às pessoas:
- Viram passar um homem a conduzir um burro, onde ia uma mulher com um menino ao colo?
- Vimos, sim senhor! - responderam os ceifeiros.
- Passaram aqui quando estávamos a semear este terreno! Ao ouvir tal, exclamaram os soldados:
- Oh! Estavam a semear?!
Então já passaram há muito tempo!
Já não os vamos conseguir apanhar!
E voltaram para trás, desistindo da perseguição.

smilie

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Lenda encantada




No lugar das Quadrelas, na freguesia de Vilar de Amargo, há uma sepultura cavada num
penedo, onde jaz uma moura encantada.
Um dia, dois homens encaminhavam-se para esse
local, tratando a terra cultivada de cereal.
Pobres que eram, aproveitavam todos os sítios onde
o centeio se pudesse desenvolver. O mais novo disse ao pai que ia tentar cavar em volta da
alta rocha que ali se encontrava.

Cansado de batalhar contra o duro terreno, reparou numa estreita fenda que havia no penedo.
Curioso, cavou com mais afinco, para ver se descobria o que por ali estaria escondido.
Foi
grande a sua surpresa quando a enxada bateu numa superfície dura. Afastou a terra e viu uma
tampa.
Chamou o pai e ao levantarem-na encontraram uma panela cheia de moedas de ouro.
Espantados com tal descoberta, correram para casa, contando à mulher e à filha o sucedido,
escondendo a panela em local seguro, jurando guardar segredo da descoberta.
Alguns dias
depois o rapaz começou a sentir-se mal e caiu de cama.
Chamaram o médico, mas este não
foi capaz de descobrir qual o mal que afligia o moço.

Uma tarde, quando ele se encontrava sozinho em casa, apareceu-lhe uma velha, de cabelos
compridos e desgrenhados, ocultando-lhe completamente o rosto que, numa voz arrastada, lhe
disse que não procurasse mais riquezas junto ao penedo, pois a ousadia e cobiça podia sairlhe
cara.
Poucas noites depois, quando a família dormia a sono solto, o vulto da velha apareceu
repentinamente no quarto do pai e, dirigindo-se para a cama do casal, deu-lhe duas bofetadas.
O homem acordou estremunhado e perguntou à mulher qual a razão de lhe ter batido. Ela,
espantada, disse não saber do que estava a falar.
Ao outro dia de manhã, quando contaram o sucedido ao filho, este pôs-se a cismar no que a
velha lhe tinha dito, mas não contou nada aos pais. Tomando a refeição da manhã, pegaram
nas enxadas e dirigiram-se para as Quadrelas, a trabalhar o pouco terreno que ali possuíam.
Único sítio de onde tiravam sustento para a casa.
Andavam entretidos na faina de lavrar o terreno, quando do meio de umas pedras saltou uma
cobra que se enroscou na garganta do arado.
Refazendo-se do susto, preparavam-se para
afastar o réptil com um pau, quando repararam estupefactos que este tinha desaparecido.

Continuando a faina, o rapaz encontrou no meio de um rego um cordão com uma medalha de
ouro, mostrando-o de imediato ao pai.
Este, ao ver tão valiosa peça, disse que era para a filha.
Foi então que o rapaz ouviu a voz da velha, dizendo-lhe:
- Lembra-te do que te recomendei!
Não te atrevas a dar o cordão à tua irmã. Põem-no ao
pescoço da tua cadela e verás o que acontece.
O rapaz contou ao pai o que a misteriosa voz lhe tinha dito.
Deixando o trabalho, regressaram
a casa e seguiram o conselho da velha.
Chamando a cadela, puseram-lhe o cordão ao
pescoço e qual não foi o seu espanto ao verificarem que o pobre animal tinha desaparecido.
Atirando com o cordão para longe, compraram um terreno com o dinheiro que tinham achado
e abandonaram o local maldito, que apesar de lhes ter permitido melhorar de vida, tantas
preocupações lhes tinha dado.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008


O Lobisomem


A aldeia andava em alvoroço! Ao fim da tarde, quando as pessoas recolhiam ao lar, depois de
um cansativo dia de trabalho, notava-se nelas um olhar receoso, a acompanhar as sombras
que os corpos desenhavam no chão. O patinhar nervoso de um macho, no caminho
empedrado, fazia-os levantar a cabeça com apreensão.
Quando finalmente o sol desaparecia para lá da linha do horizonte, as pessoas entravam
apressadamente em casa, aferrolhavam as portas e mais ninguém se aventurava na rua. Sem
sombra de dúvidas, que alguma coisa de extraordinário se passava, para trazer a população
aterrada.
Quando a família se reunia à volta da lareira, aconchegando-se do frio e do vento que lá fora
se fazia sentir, o silêncio da noite escura era quebrado por um tropel furioso que batia
surdamente nas pedras da calçada. Apesar do calor da lenha que crepitava no lume, as
pessoas sentiam-se trespassar por um calafrio que as empurrava para a cama.
Não conseguiram dormir! Os olhos inquietos acompanhavam, na escuridão do pequeno quarto,
o som da furiosa cavalgada que se ouvia na rua. Por vezes o barulho cessava e o silêncio
parecia paralisar os corações assustados. Era assim, noites seguidas, até ao romper da
aurora, altura em que tudo sossegava de novo e a vida tornava à normalidade.
No campo, cada um ocupava-se do trabalho, receando falar com o vizinho sobre o ocorrido. A
desconfiança juntava-se ao medo. Quem sabe, se não seria o lobisomem que todas as noites
aterrorizava a aldeia? Todos os cuidados eram poucos!
A situação arrastava-se há longo tempo, até que um corajoso moço resolveu desvendar o
mistério que a todos preocupava. Uma noite, em lugar de entrar em casa, escondeu-se no
palheiro, deixando a porta ligeiramente aberta.
A noite estava fria. O vento uivava violentamente, levantando nuvens de poeira à sua
passagem. Um ténue luar espreitava temeroso por entre as nuvens. O moço aconchegou o
capote, procurando resguardar-se do frio que o ia tolhendo.
Nisto, um furioso galope atroou os ares e uma sombra negra surgiu no meio da calçada, que
chispava com o contacto violento das patas. A figura horrenda resvalava pelas valetas,
escoicinhando para todos os lados, abalando as ombreiras das portas. O rapaz, assustado, mal
tinha forças para se mexer, encostando-se à porta do palheiro para se aguentar nas pernas.
Quando a misteriosa personagem se aproximou um pouco mais, o jovem quase em pânico,
pôde ver, à luz do luar, que se tratava de uma figura grotesca, metade homem e metade
cavalo, ferrado de pés e mãos. Sentiu o sangue gelar-se-lhe nas veias, mas a sorte estava do
seu lado. Antes que tivesse feito qualquer gesto que denunciasse a presença, o monstro
seguira caminho e desaparecera.


Refeito do forte susto que apanhara, regressou cautelosamente a casa, olhando inquieto em
todas as direcções. Deitou-se, mas não conseguia dormir. Não lhe saía do pensamento a
imagem da horrível figura. Constantemente se interrogava sobre o que deveria fazer ao outro
dia: contar o que vira, ou calar-se?
Logo que na rua se começaram a sentir os passos de homens e animais que se dirigiam para a
faina do campo, levantou-se e foi a casa de um dos mais velhos homens da aldeia, tido como
pessoa sensata e sabedora. Sentado num pequeno banco de três pés, junto à lareira, olhando
fixamente para o chão, não se atrevia a olhar para o rosto do homem que ouvia atentamente a
narração dos factos acontecidos na noite anterior, receando a sua reacção perante tão
mirabolante história.
- Foi grande a tua coragem, meu rapaz! O que presencias-te, poucas pessoas viram e algumas
delas não escaparam à fúria do lobisomem . respondeu o velho, num tom de voz calmo e
prudente.
O jovem, animado pela seriedade do ancião, levantou o rosto e fixou-o atentamente. Uma bela
cabeleira branca, com algumas falhas no meio, emoldurava-lhe a cara, morena, queimada por
uma vida de trabalho de sol a sol. Dois olhos escuros, com um brilho vivo e de expressão
meiga, sobressaíam do meio da pele enrugada e curtida pelo vento.
- Esse encanto . continuou o ancião . só termina quando alguém conseguir espetar o aguilhão
de uma vara no corpo do monstro, fazendo-o sangrar bastante. Mas, para isso, é preciso muita
coragem.
- Deixe o caso comigo . respondeu o moço, depois de ter pensado um pouco no assunto. Eu
próprio me encarregarei desse trabalho, se aí está a solução para tão terrível problema.
- Já tinha reparado que és corajoso, mas toma cuidado! Se não o picares bem, corres grave
perigo de vida!...
Quando anoiteceu e depois de toda a população ter recolhido a casa e aferrolhado as portas,
como habitualmente, o rapaz disse aos pais que ia passar a noite no palheiro, para sossegar
os animais que andavam um pouco nervosos. Apesar de a noite estar clara, iluminada por uma
lua cheia que, de vez em quando era ofuscada por novelos de nuvens, a ventania era forte.



Embuçando-se no espesso e escuro capote, o corajoso rapaz saiu do palheiro, levando uma
comprida e forte vara, de grande aguilhão. Cautelosamente, procurou as sombras das casas e
dirigiu-se para o cruzeiro que ficava à beira do caminho.
Não teve de esperar muito tempo para ouvir o furioso tropel, anunciador da presença da terrível
criatura. Dentro das casas, as crianças aconchegavam-se junto dos homens. As mulheres
desfiavam as contas do rosário, balbuciando a meia voz uma série infinda de orações. O rapaz,
apesar do medo, apertou fortemente a vara.
De repente, a infernal figura surgiu no largo, aproximando-se do local onde o destemido moço
estava escondido. Apesar de toda a sua coragem, tremia e lembrava-se das últimas palavras
que o velho lhe dissera: .Toma cuidado, se o não picares bem, corres grave perigo de vida!.
Um calafrio percorreu-lhe o corpo, mas recobrando o ânimo, preparou a vara, resolvido a levar
a missão até ao fim. Esperou! O monstro avançava, passando perto do rapaz que não hesitou
em cravar-lhe bem fundo a aguilhada. Um urro tremendo ecoou pela noite silenciosa,
aterrorizando ainda mais a população assustada.
Como por encanto, a calma voltou e o vulto diabólico desapareceu, não deixando rasto de si. O
valente moço respirou fundo, apesar de tremer como varas verdes e o coração bater
descontroladamente. Esperou um pouco para se acalmar e certificar-se que o lobisomem tinha
desaparecido, não fosse armar-lhe alguma cilada.
Mais calmo, foi-se deitar, mas não conseguia dormir, pensando em tudo por que tinha passado.
Ao outro dia, logo de manhã, foi a casa do ancião e contou-lhe o sucedido.
A partir desse dia, o furioso tropel deixou de se ouvir na povoação. As pessoas, encorajadas,
começaram a fazer vida normal, perguntando umas às outras a que se deveriam tais
acontecimentos.
Um dia, em conversa com uns amigos, o rapaz contou a sua aventura. Não demorou muito
tempo que toda a aldeia soubesse do acontecido. Só que ninguém conseguia descobrir quem
fora o infeliz que, por partes do demónio, tinha o triste fado de se transformar em lobisomem e
ter que, todas as noites, percorrer sete aldeias, sete fontes e sete pontes.
Pouco tempo depois, um dos mais ricos lavradores da aldeia, que há já algum tempo deixara



de ser visto, apareceu a coxear fortemente. A população olhou intrigada para o homem. Se até
então, ele sempre fora uma pessoa sã e forte, que desastre lhe teria provocado aquela
deformação? Seria ele o lobisomem?
Uma tarde, quando o rapaz tinha regressado do campo e dava ração ao gado, entrou no
palheiro o lavrador aleijado. Olhando fixamente o jovem, baixou as calças e mostrando-lhe uma
feia e profunda ferida, que lhe afectava a nádega direita, perguntou:
- Que achas que merecia a pessoa que fez isto a um homem, deixando-o aleijado para o resto
da vida?
- Sem dúvida, que tal não merece perdão . respondeu o moço, não desconfiando do motivo de
tal conversa.
- Tens razão, e justiça será feita . disse o homem.
Metendo a mão ao bolso, tirou um longo e afiado punhal, aproximando-se calmamente do
atónito rapaz que, num gesto instintivo recuou uns passos. Porém a parede interrompeu-lhe o
movimento. A manjedoura de um lado, e os fardos de palha do outro impediram a fuga. Estava
encurralado. Que queria aquele homem? Sempre o conhecera como pessoa justa e bondosa e
não se lembrava de lhe ter feito mal algum.
- Não te assustes . continuou o lavrador. Sei que és um rapaz corajoso. Sou o sétimo filho
varão, e por isso sofri o condão de me transformar em lobisomem. A tua coragem livrou-me
desse horrível fado Antes aleijado, mas limpo de alma e coração. Este punhal era do meu avô.
Tem o cabo de ouro e cravejado de pedras preciosas. Por mais valioso que seja não paga o
favor que me fizeste. É teu. Merece-lo mais do que ninguém.
Depositado o punhal nas mãos do assombrado rapaz, o lavrador saiu a coxear. Um sorriso de
felicidade, que o moço não pôde ver por estar de costas, sobrepôs-se ao esgar de dor que
sentia ao dar cada passada.



quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A MENINA E O PÁSSARO ENCANTADO

Rubem Alves

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: Era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola estiver aberta, vão embora para nunca mais voltar.Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades...Suas penas também eram diferentes.
Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava.Certa vez, voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão.
"- Menina, eu venho de montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. MOV.com.br - Recados Animados para seu Orkut




Trouxe, nas minhas penas, um pouco de encanto que eu vi, como presente para você...".E assim ele começava a cantar as canções e as estórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.Outra vez voltou vermelho como fogo, penacho dourado na cabeça.
"... Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga.
Minhas penas ficaram como aquele sol e eu trago canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.E de novo começavam as estórias.A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isso voltava sempre.
Mas chegava sempre uma hora de tristeza."- Tenho que ir", ele dizia."- Por favor não vá, fico tão triste, terei saudades e vou chorar...."."- Eu também terei saudades", dizia o pássaro. "-- Eu também vou chorar.
Mas eu vou lhe contar um segredo: As plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios... E o meu encanto precisa da saudade.
É aquela tristeza, na espera da volta, que faz com que minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudades.Eu deixarei de ser um pássaro encantado e você deixará de me amar.Assim ele partiu.
A menina sozinha, chorava de tristeza à noite. Imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa destas noites que ela teve uma idéia malvada."- Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá; será meu para sempre.
Nunca mais terei saudades, e ficarei feliz".Com estes pensamentos comprou uma linda gaiola, própria para um pássaro que se ama muito.
E ficou à espera.Finalmente ele chegou, maravilhoso, com suas novas cores, com estórias diferentes para contar.Cansado da viagem, adormeceu.Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Foi acordar de madrugada, com um gemido triste do pássaro.
"- Ah! Menina... Que é que você fez?
Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias...

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".Sem a saudade, o amor irá embora...
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas isto não aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ia ficando diferente.
Caíram suas plumas, os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste.
E veio o silêncio; deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava.E de noite ela chorava pensando naquilo que havia feito ao seu amigo...
Até que não mais agüentou.
Abriu a porta da gaiola.
"- Pode ir, pássaro, volte quando quiser...".
"- Obrigado, menina. É, eu tenho que partir.
É preciso partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro da gente. Sempre que você ficar com saudades, eu ficarei mais bonito.
Sempre que eu ficar com saudades, você ficará mais bonita. E você se enfeitará para me esperar...
E partiu. Voou que voou para lugares distantes. A menina contava os dias, e cada dia que passava a saudade crescia.
"- Que bom, pensava ela, meu pássaro está ficando encantado de novo...
".E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos; e penteava seus cabelos, colocava flores nos vasos...
"- Nunca se sabe.
Pode ser que ele volte hoje...
Sem que ela percebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado como o pássaro.
Porque em algum lugar ele deveria estar voando.
De algum lugar ele haveria de voltar.
AH! Mundo maravilhoso que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama...
E foi assim que ela, cada noite ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento.- Quem sabe ele voltará amanhã....
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
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©2007 '' Por Elke di Barros